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Crise habitacional: responsabilidade 
do Estado e da Sociedade



Durante o último carnaval ocorreram algumas ocupações de terrenos ociosos, por parte de movimentos de luta por moradia, na Zona Noroeste. Imediatamente, representantes do Executivo apressaram-se em apontar culpados pelo ocorrido, elegendo como suspeito de sempre o Partido dos Trabalhadores. O prefeito Beto Mansur, cujo cargo lhe atribui inequivocamente a responsabilidade pela condução da política habitacional em Santos, ao invés de humildemente reconhecer a absoluta falta de ação e propostas para a área, preferiu encontrar um bode expiatório, no caso, o que lhe parece mais interessante politicamente. Na campanha eleitoral de 2000,  Mansur não se incomodou com invasões
O direito à moradia digna é hoje reconhecido como direito humano fundamental, pelo Tratado dos Direitos Econômicos e Sociais da ONU, e pela Constituição Federal Brasileira, em seu artigo 6º, sendo obrigação de todos os entes da federação. Vale dizer que União, estados e municípios devem adotar políticas de habitação, prevendo dotações orçamentárias específicas, estruturando corpo técnico preparado para lidar com a questão e fomentando a participação popular na discussão dessas políticas.
No Brasil, a industrialização que se desenvolveu, sobretudo após 1930, fundou-se sobre o pagamento de baixas remunerações aos trabalhadores assalariados, que foram atraídos do campo para a cidade, tornando o país, no final do século passado, o campeão mundial em termos de velocidade e dimensão de sua urbanização. Como demonstrou o Censo Demográfico 2000, mais de 80% da população brasileira vive nas cidades, em sua maioria, em locais desprovidos das mínimas condições de habitabilidade.

TIJOLO POR TIJOLO

Segundo dados do Instituto da Cidadania, de 1995 a 1999, foram construídas no Brasil 3,7 milhões de moradias em condições precaríssimas, pelas famílias de baixa renda, sem qualquer financiamento. São famílias que reduzem seus já baixos padrões de consumo, inclusive de comida, ao nível de subsistência, para comprar com seu próprio dinheiro "tijolo por tijolo, prego por prego, saco de areia por saco de areia", e erguer sua casa nos fins de semana, quando seu corpo cansado e sua saúde mereciam uma pausa. Suas precárias moradias, na linguagem técnica, são fruto de sua própria "poupança". Melhor seria dizer, em linguagem clara, fruto do subconsumo e da sua fome. 
Na Baixada Santista, a crise das décadas de 80 e 90 aprofundou particularmente este quadro, pois as transformações profundas na economia, com seus desdobramentos no porto, no parque industrial de Cubatão e em outros setores produtivos importantes, tiveram conseqüências perversas para os níveis de emprego e renda de nossa região. Foi principalmente nestas últimas décadas que se acelerou a ocupação de terrenos, pela população de baixa renda, em áreas ambientalmente frágeis, como manguezais e encostas. Sobretudo a área central da Baixada, os municípios de Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá e Praia Grande, passou a apresentar um número cada vez mais preocupante de moradias precárias, em favelas, cortiços e loteamentos irregulares. Com base em dados das prefeituras locais, no início desta década, estimava-se que cerca de 22% da população desses municípios viviam em submoradias.
Contudo, a compreensão na sociedade das causas reais dessa crise de moradia e, conseqüentemente, o compromisso das pessoas e governos com seu equacionamento, são especialmente difíceis. Há pessoas que simplesmente ignoram a existência da crise crendo que a proliferação de assentamentos precários parece ser fato absolutamente normal e inevitável. Há, porém, aqueles que, compreendem perfeitamente o vínculo entre a forma como se estruturou a sociedade industrial no Brasil e a segregação da imensa maioria da população nesses assentamentos. Lamentavelmente, há também, aqueles, como o sr. Prefeito, que mantêm uma postura omissa e até mesmo cínica diante dos fatos, preferindo caçar culpados pela crise habitacional, contribuindo para encobrir as suas verdadeiras causas.
Tanto o governo federal quanto o do estado de São Paulo possuem hoje suas políticas habitacionais e, dentro delas, áreas específicas da administração voltadas para a questão. No nível federal, o governo Lula criou o Ministério das Cidades especialmente para tratar da questão da habitação e do urbano. Esta pasta, em conjunto com a Caixa Econômica Federal (CEF), e com recursos orçamentários e do FGTS, vem desenvolvendo uma série de programas destinados ao provimento de habitação digna para faixas de renda tradicionalmente excluídas do mercado imobiliário dito formal. O governo estadual, através da CDHU, com recursos do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), também possui uma série de programas que podem ser acessados pela população de baixa renda, ainda que questões polêmicas, como o sorteio de moradias e a faixa de renda atendida pelos programas estaduais, não estejam satisfatoriamente equacionadas.

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